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terça-feira, 18 de junho de 2013

Astrologia e o Pensamento Simbólico

     Astrologia e o Pensamento Simbólico
   Astrologia surgiu nos primórdios da humanidade através da necessidade do homem se relacionar com a natureza e com o grupo, formou seus mitos, signos, ciclos e sistema, que ao longo da história vem contribuindo, qualificando seu estudo e desenvolvimento aplicado através dos tempos.
   Hoje, a interpretação astrológica nada mais é do que aplicar estes estudos milenares a nossa realidade. Usar acontecimentos do passado e o posicionamento dos planetas do Sistema Solar a eles relacionados, prever através da similaridade, para enriquecer e aprimorar nossos comportamentos, pensamentos e metas, além de nos libertar dos limites impostos pelas fronteiras do planeta, ampliando a concepção da nossa existência, nos definindo como partículas cósmicas e universais.  O estudo do simbólico desenvolve o raciocínio e potencializa a inteligência, amplia a capacidade de questionar, interpretar e concluir.
   Para isto acho importante falar sobre o pensamento simbólico, que é um processo de representação mental na qual o indivíduo analisa um determinado modelo concreto, e a partir dele, formula estratégias para a solução de problemas.
   Para isto me reporto a Ernst Cassirer (1874-1945), filósofo alemão do neo kantismo  nasceu em Breslau, hoje Wroclaw, Polônia. Com seus estudos sobre a crítica do conhecimento, foi pensador influente no campo das teorias modernas da hermenêutica e de algumas formas de estruturalismo. Foi professor de Filosofia e reitor na universidade de Hamburgo (1919-1930).    Quando Adolf Hitler tomou o poder na Alemanha, Cassirer exilou-se na Inglaterra, Suécia e Estados Unidos. Foi nos tempos de Hamburgo que concluiu sua obra teórica: “A Filosofia das Formas Simbólicas”.  
   Suas interpretações partem da teoria do conhecimento e da produção de sentidos. Direciona-se para uma crítica das culturas, abordando, desde a linguagem sonora como instrumento simbólico de objetivação dos conceitos, até o mito como uma das formas mais originais e primitivas de mundo. No vol. I trata da produção do conhecimento e da linguagem, instrumento de expressão do “saber”. No vol. II, aborda a linguagem e sua relação com as formas míticas de pensamento. Tomo por base o primeiro volume, a proposta é entender a produção do conhecimento e sua expressão. 
   Ernst Cassirer sustenta que a produção do saber em relação ao mundo objetivo, depende de um processo intelectual ou de uma qualidade especial, que torna o homem um potente produtor de sentidos. Tal qualidade é a capacidade do homem em criar “signos” ou representar simbolicamente tudo aquilo que sua criatividade ou sua intuição produz, em termos de “idéias” ou “conceitos”, a respeito das coisas exteriores que tocam seus sentidos. Chamemos de pensamento simbólico essa capacidade peculiar.
O ato de “simbolizar” ou “representar” por intermédio de “signos” os produtos do pensamento é processo elementar pelo qual o homem produz seu conhecimento. O “ser” ou “objeto” concebido pelo espírito humano é submetido a um processo primordial e universal de construção de sentido, processo que está presente em todos os universos culturais. Uma lei universal de construção do saber, porque todo e qualquer indivíduo, para que consiga compreender ou atribuir sentido ao seu mundo de experiência sensível, sempre dependerá dessa capacidade de criar símbolos, elementos representativos ou “signos” que garantam uma expressividade e uma sistematização lógica para tais objetos do saber. O pensamento simbólico é a base de todo saber criativo.
   Cassirer acreditava que o “mundo humano” divide-se em duas esferas de concepções distintas que, apesar de distintas, são complementares. Tais esferas ligam-se, uma ao plano sensível-material e a outra ao plano espiritual-imaterial. O plano sensível é o plano da experiência dos sentidos com as coisas e objetos da natureza exterior ao homem. O plano espiritual é o plano do intelecto cognitivo, do imaginário, do universo psíquico do homem no qual produz, sistematiza e armazena idéias a respeito das coisas exteriores, ou seja, de seu mundo experimentado sensitivamente. São dois planos que se complementam, um não existe sem o outro. São intrínsecos e fundamentais.
     A interação entre os planos sensível e intelectual, para Cassirer, garante a base fundamental da lei geral de criação de conhecimento e idéias sobre o mundo humano. Uma interação que estimula a criatividade ou capacidade humana de produzir símbolos, representações para as coisas do plano natural da experiência. Essa interação entre os dois planos ocorre no processo de vivência e da atividade social dos indivíduos. A ação cotidiana do homem se define na exploração, investigação e domínio da natureza, ou seja, na busca pelo entendimento a respeito de sua essência. A busca de respostas sobre a essência das coisas do mundo é a motivação do agir do homem. O homem só encontra sentido para sua vida na concepção de sua atividade cotidiana.
   A produção do conhecimento está diretamente ligada à problemática do ser-objeto e sua essência, ou seja, vinculada a uma condição ontológica básica. A definição do “ser”, aquilo que “é” em sua “essência”, está baseada no processo de construção de sentidos, idéias ou conceitos, viabilizada pelo pensamento simbólico. Ao se relacionar com um “objeto do conhecimento”, com o “ser”, o homem apreende-o sensitivamente no plano da experiência, constrói uma ideia ou conceito a respeito daquele objeto experimentado, expresso esse conceito ou ideia por intermédio dos signos ou elementos simbólicos concebidos intelectualmente. O conhecimento só é possível porque o homem é criativo e consegue produzir formas simbólicas de representação das idéias que concebe em relação ao seu mundo.
    Esse sistema “simbólico de representação de idéias e conceitos” sobre as coisas, Cassirer chamará de linguagem. O filósofo entende a linguagem falada como um sistema de signos sonoros, que servem para representar e expressar simbolicamente nossas idéias e concepções, a respeito de tudo o que somos e daquilo que nos cerca. A linguagem falada é o instrumento pelo qual damos sentido à nossa vida cotidiana de experiências e criações objetivas. Tudo o que existe em nosso plano de ação objetiva, cotidiana, “real de fato”, está sujeita aos termos linguísticos e signos sonoros para que sejam interiorizados, pensados ou compreendidos por todos os indivíduos. A linguagem sonora é um sistema de signos convencionado e coletivamente aceito. Todos os indivíduos de uma sociedade, para lidarem com seu conhecimento e com seus conceitos a respeito das coisas, dependerão da linguagem como instrumento de expressão e significação.
   O conceito de linguagem é bastante complexo. Podemos entender como linguagem diversos tipos de elementos ou sistemas simbólicos de representação. Existem três tipos básicos de linguagem:  a sonora, constituída por signos sonoros apreendidos pela audição, a visual, constituída por signos imagéticos captados pela visão e a linguagem tátil, constituídas por signos materiais e sensíveis captados pelo tato. Podemos notar, portanto, que Cassirer trabalha apenas com uma dessas categorias de linguagem, ou seja, a linguagem sonora falada.
   Segundos seu entendimento, a totalidade do conhecimento humano divide-se em quatro categorias ou campos específicos de produção de sentidos. São eles os campos ”ciência”, “mito”, “arte” e “religião”. Em termos linguísticos  Cassirer diz que cada um desses campos produz um conhecimento de mundo pautado em uma condição específica e particular. No entanto, todos esses campos, para que produzam o saber que lhes é peculiar, seguem o mesmo princípio básico, ou lei de representação simbólica. Em outras palavras, qualquer um dos citados campos dependerá de uma linguagem, neste caso da linguagem sonora, para expressar seus conceitos e produtos do intelecto. Contudo, podemos dizer que qualquer um desses campos necessitará de todas as categorias de linguagem simbólica possíveis para expressar e representar seus valores de mundo. Quando juntamos todos os citados campos, totalizando e unificando os saberes neles produzidos, podemos com isso, chamar essa totalidade de cultura.
   Uma cultura é formada pela totalidade dos saberes e objetos produzidos pelo homem e Cassirer acredita que todos os campos citados, ou seja, a ciência, o mito, a arte e a religião, estão no mesmo plano de legitimidade e objetividade de saberes. Nenhum deles é superior ou mais verdadeiro do que outro. Todos estão num mesmo plano de veracidade, objetividade e legitimação simbólicas. O pensamento simbólico do homem trata-se do princípio e da lei comum de produção de sentido,  em qualquer um desses campos do saber. Todos os campos produzem verdades que lhes cabem no plano da “experiência objetiva”. Verdades legitimadas no plano da ação social cotidiana. Verdades, portanto, simbolicamente representadas pelos indivíduos.
   As idéias básicas de Ernst Cassirer são propostas epistemológicas ou teoria do conhecimento, ramo da filosofia que trata da natureza, das origens e da validade do conhecimento, que contribuem com as perspectivas analíticas a respeito da forma com a qual os seres humanos produzem o seu. Segundo Cassirer, compreender o pensamento simbólico do homem é valorizar os produtos culturais, físicos e imaginários que dão sentido à vida dos indivíduos em seu mundo particular. Seja pela linguagem sonora, visual ou tátil, o homem sempre estará expressando e sistematizando simbolicamente seu conhecimento de mundo. A crítica que se faz a respeito desse processo de construção simbólica é também uma crítica da cultura. Observar os valores simbólicos de uma sociedade, seja no campo da religião, da arte, da ciência ou do mito, será sempre um ato de busca pela essência do espírito humano.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASSIRER, Ernst. A Filosofia das Formas Simbólicas. “Primeira parte: A Linguagem”. São Paulo: Volume 1/2.  Martins Fontes, 2001.

CASSIRER, Ernst. A Filosofia das Formas Simbólicas. “Segunda parte: O Pensamento Mítico”. São Paulo: Volume 2/2.  Martins Fontes, 2004.